O tardio despertar…

Ninguém ignora aquela máxima que determina que nunca, jamais deixemos algo suspenso. Que seja feito o que tem que ser feito agora! Seja um abraço, um pedido de desculpas, um passeio, uma viagem, uma leitura inacabada… Não importa o título da ação. Importa que o façamos.

Quantas vezes você prometeu para si concluir todos os seus projetos inacabados? Quantas vezes você decidiu não deixar para amanhã o que quer que fosse?

Meus botões bem sabem que essa resolução foi tomada mais de uma centena de vezes. Assertivamente, eu prometi para mim mesma que meus negócios jamais ficariam suspensos, aguardando uma indefinida condição. Mas, volta e meia, a vida vai sendo postergada. E como dói na alma quando algo fica eternamente suspenso!

A morte me visitou alguma vezes e, a exemplo de nossos últimos, eu prometi a mim e a ela que mudaria minha atitude, que jamais permitiria que ela me levasse alguém de quem não me despedi adequadamente. E por despedida leia-se um abraço, um caloroso até logo, um simples aperto de mãos ou um aceno gentil. Ninguém espera, a não ser no leito de morte, despedir-se para sempre. O “for good” não existe, realmente, em nossas vidas. Mas e se aquela for a despedida derradeira, o beijo derradeiro, o abraço derradeiro, o beijo derradeiro? Pior… E se depois daquela porta batida, daquele “estou de saco de você” ou daquele olhar desdenhoso você receber a notícia de que alguém realmente foi embora?

Apesar de consider muito sedutora, não consigo conceber a ideia de reencarnação. Para mim a vida é uma só e nela está encerrada nossa melhor e única possibilidade de ser e fazer feliz. Entre a possibilidade e a realização está apenas a nossa decisão e o nosso livre arbítrio.

Já perdi gente demais. Já me despedi por demais! E algumas despedidas foram marcadas pelo arrependimento do que não fiz, do que não disse. O dia de ontem e o acontecimento terrível de ontem me refez contemplativa diante da vida, da morte e do sopro que somos, em essência. De fato, não somos nada! Títulos são irrelevantes! Condição social, econômica e financeira são completamente irrelevantes porque, como diz a sabedoria popular, caixão não tem gaveta. E se eu tivesse partido ontem, seria muito triste analisar as obras inacabadas que teria deixado por aí. Ainda mais triste seria encarar os motivos que me levaram a adiar minha própria felicidade.

É tempo de despertar para uma nova vida, para uma nova atitude, para um novo eu! É premente viver para ser feliz, para fazer feliz! De sobreviventes o mundo está cheio e são eles (nós) que tornamos o mundo muito mais pesado e cinza. É preciso colorir mais, rir mais, andar de mãos dadas, comer chocolate e algodão doce sem culpa, medo ou vergonha. É premente que usemos nosso melhor perfume, nossa melhor roupa, que usemos a prataria fina e que o sofá fique cheio de restos de pipoca. Porque, afinal, “o que se leva da vida é a vida que se leva”. Nada mais…

CARTA AO MEU FILHO: A verdadeira felicidade

Meu filho,

Durante anos sonhei com o momento em que me tornaria plenamente feliz. Havia uma promessa implícita de que, ultrapassado um determinado marco e vencidos vários obstáculos, a felicidade reinaria soberana em minha vida, de tal modo que, a partir dali, meus dias seriam de pura contemplação. Porém, enquanto mantive a fé na felicidade plena, não fiz outra coisa, senão sonhar em ser feliz.

Nesta tarde gélida, meus passos me contaram sobre a verdadeira felicidade!  E então eu finalmente percebi que, em minha vida, não houve um único dia em que eu não tenha sido feliz.

Como nas telenovelas da década de 90, em meus almoços solitários, encontro rostos novos que, aos poucos, revelam velhos amigos. Pelas ruas, garis simpáticos confessam que, afinal, estamos tendo um bom dia. No supermercado, um sorriso emoldurado por bochechas rosadas anuncia as mais brilhantes técnicas de convencimento. No cair da noite, uma música faz meu coração expandir-se e convencer-se de que tem amor suficiente para aplacar toda a infelicidade do mundo. No rosto do seu pai, leio, diariamente, o convite para ser feliz e, na profundidade de seu olhar, descubro a essência do divino. Meus amigos queridos sempre revelam pistas para reencontrar a felicidade em meio à turbulência. A construção diária que faço mediante meu trabalho é minha maior garantir de imortalidade. Em minha família está a essência da força que jamais me deixou desistir. E, em cada amanhecer, a vida me premia com pelo menos uma gargalhada.

Eis aí, pedaço do meu coração, a verdadeira felicidade, a síntese do que passamos a vida toda procurando. E não se engane… A felicidade é tão discreta, tão suave, tão delicada que, não raras vezes, passa despercebida. E, quando nos damos conta, o tesouro porque tanto procurávamos estava enterrado sob nossos pés…

Contudo, também conheço a extrema felicidade!

Ah, aqueles momentos que fazem sua respiração pausar, seu coração pulsar mais forte e descompassado, suas pernas amolecerem e suas mãos suarem…

A extrema felicidade se faz presente em momentos bastante singulares. Ela é sempre acompanhada por um relâmpago e seguida por uma moldura: esta é a melhor definição de recordação. Porque a vida, meu pequeno, não permitirá que a extrema felicidade passe despercebida e ela mesma se encarregará de depositar em sua memória essas fotografias que chamamos recordações.

O brinquedo preferido da infância, o melhor de todos os aniversários; o primeiro beijo; o prato preferido; o primeiro prêmio; seu monocromático boletim sempre “azul”; um velho conhecido que se torna, aos poucos, um grande amigo; a primeira aprovação no vestibular; o problema de matemática que, após horas de desafio e provocações, você conseguiu resolver sozinho; a formatura e a incomparável sensação de levantar o canudo; o casamento; uma paisagem deslumbrante; um jantar banal com a pessoa que você mais ama nesse mundo; o primeiro, o segundo e talvez o terceiro filho… A felicidade extrema!

E você descobrirá que aqueles relâmpagos que percebia nesses momentos nada mais eram do que os flashes que a vida dispara para garantir a qualidade da fotografia…

Sim, meu sonhado filho! Você será feliz se descobrir, em cada um dos seus dias, motivos para sorrir, se for capaz de afugentar a natural “ranzinzice” desde a sua adolescência até a sua velhice. Você será feliz se conseguir enxergar, sempre, o lado bom da vida, das pessoas e dos acontecimentos e se conseguir plantar flores pelo seu caminho. Você será, enfim, feliz se conseguir colecionar as pedras que encontrar pelo caminho, pois elas serão o melhor alicerce para o seu castelo! E é somente feliz que eu desejo que você seja…

E, enquanto você repousa feliz, eu lhe embalo feliz… Sempre feliz… Porque a verdadeira felicidade é a que encontro enquanto sonho com você. E a extrema felicidade está no dia em que você virá à mim.

 

CARTA AO MEU FILHO: Saudades

SAUDADES!

Meu pequeno,

Conheço um sentimento que jamais te deixará esquecer do passado…

Há semanas, ando às voltas com esse sentimento que fará com que os dias passados aconteçam, sempre e novamente, em sua memória. O sentimento que impede conjugações pretéritas, que eterniza pessoa e acontecimentos, que faz a alma ansiar pela compreensão do tempo e do universo.

Combatemos a saudade! A saudade de quem perdemos e repousou eterno em nossos corações. A saudade das mãos que conduziram nossos primeiros passos, da voz que nos ensinou a balbuciar as primeiras palavras, do afeto que nos nutriu na infância, nos fortaleceu na juventude e nos amparou nos momentos de crise. A saudade que rasga o peito, faz doer o coração, mas ensina que é necessário sobreviver. A saudade que faz lágrimas rolarem, olhos à baixo; que impede que os nossos olhos se fechem na noite escura; que obsta qualquer tentativa de adormecer; que nos faz sentir órfãos, abandonados e perdidos no vácuo da existência.

Meu filho! A saudade… Um dos maiores paradoxos. Senti-la faz bem quando o reencontro é um fato a termo. No entanto é um escarnio quando medeia a vida e a morte, a existência e inexistência. Quisera eu podê-la renunciar… A sobrevivência, certamente, seria menos pesada. Mas a saudade é tão certa e fatal quanto a respiração.

Ao menos a saudade indica que algo bom aconteceu! Ao passo em que faz o peito doer e o coração sangrar, a saudade ensina que há fatos e pessoas a comemorar, sensações a reviver, memória a acalentar. Não fosse pela saudade e pelo consequente saudosismo, não seríamos mais do que meros robôs, programados para repetir, inconsequentes e inconsequentemente, ações vazias de significado.

Lá está ela… A saudade acenando ao lado da minha pequena avó. “Vó” Lígia, a mais dolorida de todas as minhas recordações… Desde que ela se tornou uma fotografia amarelada em meus pensamentos, eu me tornei mais dura e bem menos encantada. A morte sempre tira um pouco do brilho da vida. E toda vez que ela passa ao nosso lado, leva o que considerávamos nosso último resquício de inocência. Aos poucos a infância se cala e os anos avançam. Na medida em que os cabelos branqueiam, o coração se torna mais resistente. Ou pelo menos deveria se tornar…

Ao passo em que da saudade não posso me abstrair, sigo acalentando um único desejo: ter você em breve para que, enfim, eu possa repousar meus braços sobre o amor que imprimirá novo frescor aos meus dias entardecidos pela ausência de quem jamais poderei esquecer.

CARTA AO MEU FILHO – Sonhos

Meu pequeno,

Em tempos difíceis, sonhos são como estrelas que cintilam no céu. Longe de nossos olhos, distantes de nossas mãos, porém próximos de nossos corações.

Para ser franca, em momento algum a vida me pareceu fácil ou simples. As questões que se colocam em nosso caminho parecem, sempre, intransponíveis. Até que, em uma segunda, terceira, quarta, quinta… verificada, você descobre que sempre há uma saída, ou um desvio. E, quando menos esperamos, um grande problema se torna um incidente perdido nas páginas amareladas do livro que escrevemos, dia após dia.

Aprendi a sonhar grande, a mirar estrelas. A vida me ensinou que, no mínimo, eu alcançarei a Lua. Mas posso lhe garantir que há muitos degraus à subir. Não raras vezes, após um avanço, haverá dois ou mais retrocessos. O vento sempre pode te desequilibrar, os pingos de chuva podem comprometer sua aderência ao chão, a claridade pode ofuscar seus olhos. Porém, nunca esqueça que a escada é provida de um corrimão. Quando seus olhos falharem, agarre-se à essa guia e siga em frente. Quando cair, deslizar ou tropeçar, pare um instante. Respire fundo e compreenda que um passo incerto pode antecipar o fracasso. É preciso estar firme, decidido. Por isso, resigne-se quando houver algo a aprender. A vida é sábia e o universo sempre conspira em favor daqueles que estão dispostos ao bem.

Jamais sinta-se fracassado ou derrotado. Na vida, o acaso não existe. Tenha certeza de que um sonho não concretizado, frustrado por circunstâncias além do seu controle, merece revisão. No entanto, não se permita sentar-se e pôr-se a contemplar. Quem não semeia, não colhe. Sonhar, semear e colher são ações tão impositivas quanto viver, respirar e morrer. E se você é do tamanho dos seus sonhos, as suas realizações são a melhor representação da grandeza (ou pequenez) do seu espírito.

Lágrimas costumam acompanhar os sonhos. Lágrimas de satisfação, de felicidade, de realização. Mas também lágrimas que brotam da insatisfação, da frustração que nós sentimos em relação a nós mesmos. Contudo, lembre-se: lamentar é válido somente quando circunstâncias além de nós e de nossos ações comprometem nossos sonhos. Quando não for capaz de realizar seus próprios sonhos, então você deverá refletir sobre   o seu grau de comprometimento consigo mesmo. E não se engane… Você não realizará nada por ninguém, a não ser por você mesmo.

Persistência, dedicação e paciência. Analisando a minha vida em retrospectiva, reconheço trechos em que precisei insistir e desafiar a mim mesma. Do contrário eu estaria estagnada. Em outros pontos, percebo quanta energia deixei para trás, em prol de conseguir concluir mais um sonho. Horas de sono, células envelhecidas, amigos que não fiz, diversão que não tive, um pouco da minha energia vital ficou… Mas o esforço sempre vale a pena se você consegue apreender mais uma daquelas estrelinhas que contemplou por meses, anos até. E, finalmente, encontro centenas de calendários rabiscados, dias e dias contados, vividos e riscados, até que, no tempo certo, outra estrelinha estivesse confortavelmente depositada em minhas mãos.

Para alguns, viver completa o sentido de existir. Para mim, viver é sinônimo de construir a partir do que sou capaz de sonhar. Para você, espero que os sonhos sejam o caminho (nem sempre mais curto ou mais fácil) para a felicidade. Mas lhe peço que jamais sonhe os meus sonhos… Peço-lhe mais: construa e realize os seus próprios sonhos. E quando se sentir cansado demais, permita-se fortalecer no amor que, desde sempre até a eternidade, eu senti…

Bons sonhos meu pequenino!

CARTA À MINHA AVÓ: Giz

Minha pequena…

Durante 51 dias eu me preparei para ouvir a notícia que se consolidou em 31 de dezembro de 2011. Aos poucos, assentei em meu âmago a possibilidade da tua ausência e, com uma calma que hoje me parece mais alucinação do que realidade, contei à mim que, talvez, a minha vida precisasse seguir sem a tua. E foi assim que, ciente da tua passagem, tomei as providências para que você pudesse, finalmente, dormir em silêncio.

Passados 58 dias desde o 51º, começo a sentir a respiração pesar, os olhos marejados e o coração apertado. É uma sensação nova. Para mim, a morte sempre fui funesta no momento em que ela se abateu sobre os meus. O tempo sempre se encarregou de cicatrizar a ferida. Então, começo a sentir a incongruência de meus próprios sentimentos. Receber a notícia, comunicar tua passagem aos teus dois filhos, escolher o lenço, tomar as medidas para que você pudesse retornar à nossa terra, carregar tua urna, fechá-la e depositá-la na sua morada final me fizeram crer que a nossa história acabara naquele momento, no mesmo local em que eu enterrei dois outros amores. Ledo engano…

A cada pôr do Sol, sinto a tua ausência mais e mais presente (!). Em meus sonhos, você sorri, chora, aconselha, acalma e desespera. Em meu dia a dia, você se tornou o vazio que não consigo preencher. Já me acostumei com o impulso de abraçar cada velhinha que encontro e que, de alguma sorte, faça-me ver um pedacinho de você. Caixas e rosas  amarelas… São lembranças que eu envio à você todas as noites, antes de adormecer. Santo Anjo é a prece que me faz sentir menos órfã.

Ao contrário do que eu poderia supor, não estava preparada para te perder, tampouco estava (ou estou) pronta para te deixar partir. As circunstâncias que nós duas conhecemos exigiram uma responsabilidade que eu soube ter. A força que me guiou durante o pior período da minha vida, sem dúvida, você me outorgou. Nos 51 dias de hospital, você me ensinou muito mais do que poderíamos, eu e você, desejar. Mas, apesar de ter apreendido uma noção rara de amor, deixei de aprender o desapego. E é por isso que, em insistentes momentos perdidos em minha rotina, preciso lembrar ao meu coração que é necessário filtrar os sentimentos e deter certas emoções.

Com esse rombo incomum em meu peito, lembro da última música que cantei para você, já em um momento em que eu não tinha muita certeza da tua presença:

Desenho toda a calçada
Acaba o giz, tem tijolo de construção
Eu rabisco o sol que a chuva apagou
Quero que saibas que me lembro
Queria até que pudesses me ver
És parte ainda do que me faz forte
E, pra ser honesto,
Só um pouquinho infeliz…

É como tenho seguido em frente. O fechar dos teus olhos… O início de uma tempestade… Mas você me ensinou que, se o Sol se pôs, é necessário rabiscá-lo. E se falta giz, faço-me valer de um caco de tijolo. Aos poucos, ensino ao meu coração que você é a parte que me faz forte e que infelicidade que irradia da tua ausência é o teu empurrãozinho para a depuração do meu espírito.

E mesmo sem te ver
Acho até que estou indo bem…

Uma Visita Indesejada… Um Acerto de Contas…

Há algum tempo eu lhe pedi para que não viesse. Fui bastante clara: estava sem paciência e não pretendia lhe abrir a porta. No entanto, hoje me dou conta da sua impetuosidade e da sua ganância. Você sempre quer mais. Nem ao menos é capaz de ponderar que já tirou muito de mim, que já levou tantos que me deixou semelhante a eles: um pouco morta, não obstante viva.

Talvez meu maior erro tenha sido te desafiar. De fato, não se desafia alguém tão poderoso, ainda mais quando você (no caso, eu) tem a visão obscurecida pela ignorância humana (a natural limitação da consciência). Apesar de todos os nossos esforços, pouco entendemos sobre a vida e o que sabemos sobre você… são meras conjecturas, suposições, talvez até ilusões e invencionices.

Ando bastante contrariada, irritada. No meu ponto de vista, não era para ser assim. Eu não podia ter perdido a minha pequena da maneira como perdi. Não estou reclamando por carregar, agora, um cemitério nas costas. Depois de muita ponderação, parece-me que eu não podia ter feito nada além ou diferente do que fiz. As decisões estavam tomadas e os eventos que se seguiram já estavam delineados, definidos no tempo e no espaço. Minhas reclamações nada tem a ver com culpa ou remorso. Se circunscrevem à uma perda irremediável e incomparável. Uma perda que levou boa parte de mim.

Sei que minhas reclamações não te atingem e que, em detrimento de todas as minhas lamúrias, você continuará fazendo o que sempre fez e como sempre fez… Levando almas embora, para alguma dimensão que não me cabe. Certamente, eu não lhe convencerei a esperar, a dar tempo ao tempo, tampouco a desistir do que quer que seja. Mas a tentativa é sempre nobre, como dizem por aí.

Por outro lado, apesar de ser a arquiteta visionária da minha própria estrada, tenho encontrado motivos que quase justificam um apelo pela sua vinda, por uma visita a este meu “santuário mortal”. Por onde quer que eu ande, onde quer que eu já, assisto a injustiça. E confesso que detesto, a cada dia mais, ser a testemunha ocular de certas misérias. Tenho procurado frear meu  instinto. Não falo, não brado, nem protesto. Tudo por causa daquela já anunciada hipossuficiência.  Mas, cá entre nós, o ar está a cada dia mais rarefeito e já nem sei se certos projetos devem ganhar a luz do mundo. Talvez eles sejam nobres demais. Talvez a ausência constante do contrapeso somada à presença incessante da mão de ferro justifiquem uma nova desistência.

Sinceramente, estou farta! Das minhas perdas e do que deixo de ganhar, dia a dia. Não que você tenham algo a ver com isso. Das perdas você entende. Mas do resto, quem sabe? Então, apenas para nos despedirmos por hora, peço-lhe (e pedir é diametralmente oposto de desafiar) que você se recolha por um bom tempo. Estou em cacos e não posso, a essa altura, virar migalhas, daquelas que não mais é possível aglutinar.

Então… Até um dia, que espero esteja perdido no horizonte dos meus “enta”.

CARTA AO MEU FILHO – O Tempo

Meu pequeno!

Não nos apressemos. Não somos senhores, mas simples servos do tempo.

Anos, meses, semanas, horas! Angústia pelo tempo que perdemos. Ansiedade pelo tempo que nos separa. Uma certa teimosia em manipular o calendário, fazendo com que os dias corram de acordo com a nossa velocidade. Tudo em vão! Nada virá antes do seu devido tempo. Nem mesmo eu; tampouco você.

Um enunciado que repousa em uma lição mais desbotada que meus próprios cabelos: o que é seu está guardado e encontrará uma forma de chegar até você, no seu devido tempo e de acordo com seu merecimento. Não que a vida se encarregue de lhe entregar suas conquistas embaladas em caixas decoradas com fitas coloridas. Das suas mãos, do seu suor e das suas lágrimas dependem os eventos que marcarão a tua vida. E o resultado só dependerá de você. Essa é uma lógica que ainda não domino, muito menos compreendo… Por mais que você faça, seus desejos se realizarão no tempo certo. Se não fizer, eles simplesmente não virão.

É com o duro trabalho que edificamos nossos lares. A vida é e sempre será a nossa maior obra. Caso optemos por não edificar, nada teremos. E nosso legado será a história do homem que nada fez. Uma lástimas, se pensarmos na raridade da vida.

Não me julgo mais sábia, madura ou preparada que você. Aliás, é com você que aprendo minhas mais raras e caras lições. Mas um conselho eu te deixo: não se apresse jamais; permita-se viver de acordo com o teu tempo, sem atrasos ou precipitações. Apenas viva e construa a tua própria obra. Este será o meu maior legado… Você e a tua história.

Minha avó e eu: retrospectiva.

Eu e minha avó!

1º ano: Vovó Lígia me “embrulha” e passa a noite em claro para garantir meu sono;

2º ano: Vovó Lígia fotografa cada movimento que ensaio;

3º ano: Vovó Lígia me ensina a rezar Santo Anjo;

4º ano: Vovó Lígia faz tranças em meu cabelo toda noite;

5º ano: Vovó Lígia já se desapegou da penteadeira que, a esta altura, é mais minha do que dela;

6º ano: Vovó Lígia acompanha o início da alfabetização e prevê: essa teimosa será advogada;

7º ano: Vovó Lígia me leva ao Show da Xuxa e me deixa subir em seus ombros para que eu possa ter uma visão adequada;

Próximos anos: Vovó Lígia compra todos os produtos da Xuxa que aparecem na TV;

14º ano: Vovó Lígia descobre a adolescente rebelde;

16º ano: Vovó Lígia acompanha minha mudança de Irati para Curitiba;

17º ano: Vovó Lígia se sente a própria Mãe Dina: ela será advogada!

20º ano: Após assistir alguns erros e muitas atrapalhadas, Vovó Lígia se apaixona pelo meu futuro marido e continua confundindo seu nome – de Samuel passa para Salomão, Sansão e Ismael…

21º ano: Vovó Lígia assiste minha formatura;

22º em diante: Vovó Lígia começa a descobrir que sua netinha cresceu… Os contatos telefônicos se tornam espaçados, mas sempre presentes!

28º ano: Vovó Lígia assiste meu casamento e, finalmente, sorri quando eu confirmo que, em breve, eu lhe permitirei ser bisavó. Ela diz: bom mesmo porque eu já estou uma velha…

Nos últimos dois meses: Vovó Lígia passa a demandar minha atenção nas consultas médicas, nos exames e na internação pré-cirurgia;

Nesta madrugada: Vovó Lígia me chama no meio da madrugada. Quando chego, descubro que, na vida, os papéis costumam se inverter. E quando sinto em seu olhar uma afeição especial, sou capaz de lhe embrulhar e lhe fazer dormir, assim como ela costumava fazer…

Carta Ao Meu Filho – Um dia de Sol

Meu pequeno!

Há semanas, tenho cantarolado uma canção pensando em você. Um certo de tom de profecia me faz confessar que, em determinados momentos, lágrimas rolarão pelo teu rosto, especialmente quando você perder algo insubstituível. Ao mesmo tempo, uma nota aguda de esperança me impulsiona a afirmar que você aprenderá com os meus erros e que, sempre, haverá luzes para guiar os teus passos.

Ao passo em que ouço, cantarolo e reflito, permito que o amor se espalhe em meu peito e me inspire a te desejar ainda mais – se é que é possível. E, nesse embalo, finalmente, estabeleci a data em que iniciaremos nossa jornada. Nesta ocasião, nossos caminhos se cruzarão. Talvez você venha logo, talvez demore um pouco. Mas o fato é que virá. Não restam dúvidas.

De início, a cor dos teus sapatinhos me preocupava um pouco. Havia uma certa inclinação. Mas, depois de alguns acontecimentos, estou convencida de que a cor é irrelevante. Tenho visto homens companheiros e mulheres protetoras. E você será forte, corajoso, destemido, justo e batalhador, independentemente do motivo que escolhamos para decorar o seu quarto. Hoje minha natureza controladora fica um pouco desbotada porque começo a entender que o rio deve seguir seu curso… A vida é sabia, e você virá a mim e ao seu pai do jeito que deve ser, e da forma como deve vir!

Meu filho!

Ainda que estivesse chovendo, ainda que estivéssemos enfrentando o frio típico de nossa cidade, hoje, o Sol reina absoluto, simplesmente porque, agora, estamos nos aproximando! E, meio que sem querer, começo a cantarolar uma outra música: you are my sunshine, my only sunshine, you make me happy when skies are grey… You’ll never know, dear, how much I love you, please don’t take my sunshine away…

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CREME ALPINO

Estou bem longe de ser chocólatra. Aliás, prefiro o salgado ao doce. No entanto, o Creme Alpino, que utilizo para cobrir e rechear meus cupcakes, é sensacional. É doce na medida certa e, se você utilizar o chocolate que eu sugiro, terá notas de um “amarguinho” formidável. O melhor é que ele funciona bem com saco de confeiteiro, espátula ou colher. Ou seja, é super versátil. Sem mais delongas, eis a receita…

 

CREME ALPINO (COBERTURA/RECHEIO)

Ingredientes

01 lata de creme de leite sem soro

01 lata de doce de leite

02 colheres de sopa de chocolate em pó*

200 gramas de chocolate meio amargo derretido**

01 colher de sopa de essência de baunilha

Modo de Preparo

Em um recipiente, misture o creme de leite, o doce de leite, o chocolate em pó e a baunilha. Incorpore todos os ingredientes (se preferir, bata na batedeira). Após, acrescente o chocolate já derretido.

*Aconselho utilizar Chocolate Dois Frades

** Aconselho utilizar chocolate 70% cacau da Nestlé